O Rei de Porcelana: A nossa vida que não é nossa
Não nascemos por um porquê. Nascemos para quem?
Tão natural como a própria vida são as expectativas para com ela. Quando alguém nasce, uma série de expectativas é criada para a vida deste indivíduo, variando de contexto para contexto. Crescer, estudar, trabalhar, formar família, etc. Expectativas que costumam ser transmitidas ao novo ser humano com o passar do tempo. À medida de seu desenvolvimento, a criança, ou o jovem, passa a criar suas próprias expectativas, entrando em colisão, ou não, com as expectativas daqueles a sua volta. E quando esse choque acontecer, o que deve prevalecer?
Sendo a vida uma constante espera pelas rupturas entre expectativas e realidades, há algum modo de viver melhor com isso? A expectativa da jovem Dam-i era de não viver. Qualquer coisa que acontecesse com ela, qualquer segundo absorvendo oxigênio nessa Terra seria uma dádiva, estaria acima das expectativas impostas sobre ela.
Toda passagem de uma pessoa pela vida será rodeada de injustiças, ao passo em que se entende que aqueles que vivem só para si mesmo estão errados. A existência é o trajeto entre o nascimento e a morte, logo deixamos de causar interferências nas pessoas e na terra habitada por elas. O que importa são as marcas que se deixa, a vida que se vive. Ser alguém que viverá em prol dos outros, ou alguém por quem os outros viverão em prol? E o que impede alguém de ser ambos?
Dam-i entendeu isso. A menina que não deveria ter nascido nunca chegou a viver sua vida. Sendo forçada a assumir um personagem, de outra pessoa que também fora muito injustiçada, acabou presa dentro de um sistema que sempre a repudiou, presa em um palácio que nunca a quis lá, mas também nunca a quis deixar. Passivamente, assistiu sua própria identidade ser devorada pela necessidade de cumprir as expectativas de um sistema que nunca esperou nada dela.
Ao reencontrar um ponto de esperança do passado, aos poucos a sua verdadeira identidade começa a confrontar todos aqueles que se ancoram no personagem assumido. Pela primeira vez, suas expectativas começam a confrontar as expectativas criadas sobre si, sua vida começa a lutar para nascer, como outros lutaram para que ela tivesse uma chance. Tudo isso alimentado pelo, pasmem, amor.
Tudo isso começa a doer. O vazio não machuca, mas a repressão dos sentimentos e da esperança que começam a aflorar... A injustiça que ocorreu é um ponto inalterável, uma cicatriz que se carrega pelo resto do caminho, e que com o tempo para de doer. Mas, imaginar o que poderia ter sido se as pessoas fossem humanas é devastador.
O Rei de Porcelana é um diálogo sobre a vida, onde todos os personagens lêem o mesmo roteiro, mas só conhecem determinadas partes dele. E a cada capítulo, com cada conexão, cada um vai completando o seu quebra-cabeças, cada um vai entendendo o seu papel na vida dos outros, e o papel da vida dos outros na sua própria.
No fim das contas, a nossa vida não é nossa. Mas é nossa também.

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