A Casa Torna
1. O Culpado
O Culpado não sou eu
Olhe para as pistas detetive e me diga se sou eu
Olho para as vistas que mantive, não fui eu
O culpado é ocupado, só que ele não sou eu
Sinta o cheiro de sangue, não é meu
Estou usando um perfume de palhaço
As pegadas podem ser o fim desse percalço
Olhe pros meus pés, eu caminho com eles descalços
Se eu conhecia a vítima? Íntima
E por isso mesmo não tenho razão legítima
Você não me intimida com essa fala distorcida
Isso aqui não é cinema, não tem líder de torcida
Se você me perguntar o que acabou de acontecer
Digo que alguém quis matar
E ela não quis não morrer
Não quero obstruir essa sua tal cena do crime
Porque eu não sou o culpado
Estamos no mesmo time
Então deixa eu ajudar na sua investigação
Que eu esqueço de comentar esse sangue no seu roupão
Esse punho com certeza foi ferido com sabão
É como dizem os ratos, uma mão lava outra mão
É uma lástima não ter nenhuma câmera com vídeo
Minha hipótese então é de que foi um suicídio
Se o culpado for um morto, nenhum vivo pega pena
Me lembro que ela dizia que a vida não vale a pena
Se você me perguntar eu vou dizer que não me lembro
Que ela não se importava com as campanhas de Setembro
E que eu nunca estive aqui nessa sua tal cena do crime
Porque somos ocupados, estamos no mesmo time
2. Nunca em seus olhos
Já te procurei em tanto lugar
Que as vezes até esqueço de me ligar
Que a nossa vida é tudo, mas não é corriqueira
Correr tem quem queira, mas na esteira parado estará
E por falar em corrida
A gente corre pro que está na frente, ou do que vem de trás?
Então pega o dicionário
Porque essa é a diferença de quem é veloz pra quem é fugaz
E por falar na minha vida
Prefiro ser feliz ou prefiro ter paz?
Então pega o dicionário
Porque essa é a diferença de quem é esperto pra quem é sagaz
Voltando para a busca, a luz do poste me ofusca
Prefiro a luz de um dia nublado
Procurei em tantas áreas, e na 51
Declarei: objeto não encontrado
Talvez seja falta de sensatez
No bom e alto tom português
Me perdi nesses porquês
Mas por que são tantos porquês?
E por falar no que vejo
Já te encontrei ou preciso procurar mais?
Não tenho tanta opção
A gente segue em frente porque quem fica não sai
E por falar em desejo
Desejo investigar o resto dos locais
Não tenho tanta opção
Vou procurar, mas nunca em seus olhos
3. Buquê de Flores
Hoje eu montei um buquê de flores
Matei umas quinze
A vida me perguntou o porquê de cores
Se o caule é sempre verde quando se tira do pé
E as pétalas arranquei para brincar de mal me quer
E a resposta eu não quis compartilhar
Porque a questão das cores não está coligada com a compreensão
A vida é um coliseu no qual eu lutaria
Pronto pra assoprar o dente de um leão por dia
Assim, entramos no jardim
Cheio de jasmins, as vezes contigo, as vezes sem mim
Olhando para a terra cultivada
Morrendo de medo da margarida estar amargurada
Porque toda mágoa é água
Corrida e escoada na corrente que não te prende a nada
Então essa liberdade lida com a solidão
Até o que não é problema precisa de solução
4. Geração suco em pó
Busco uma revelação
Onde estão os filhos da revolução?
Deserdaram seus pais e hoje são burgueses com religião
Deserdaram seu país, patriotas de outras nações
Diante de suas inações, quantos faltaram com inalações?
Diante de suas ações, só vejo seitas ou facções
Avisem a Geração Coca-Cola que ela gerou as novas gerações
Vocês não quebraram o sistema ou fizeram grandes alterações
Só uma mão de tinta na parede, só vejo decorações
Tenho de cor, igual tabuada, todas as suas reclamações
Lembro de cor, de vidas manchadas, todas as nossas decepções
Vejo jovens desanimados que não compraram suas ilusões
E agem como se as criaturas não fossem suas criações
Não quero parecer ingrato, o problema não é o Renato
Mas quem cantava suas músicas não fez o seu dever de casa
As crianças da democracia hoje em dia estão exaltando reis
E implorando para que só se faça comédia no cinema com gays
Dê sua risada, cuspiram o lixo de volta em cima de ninguém
E ficam bravos quando a juventude tenta cuspir esse lixo também
Como é lindo o lixão da Lucinda
Falso moralismo tô farto
Não cuspiram o lixo para cima
Mastigaram e nos deram no prato
Não me odeie
Ou me odeie sim
À uma juventude perdida só apresentam o caminho da igreja
Que desrespeito. E o meu respeito? Ouviu direito?
Tão perdidos do mesmo jeito
Espero que o espírito da liberdade não seja uma lenda urbana
E sim a Legião dormindo
Clamo que esse espírito saia da cama que repousa
Tem uma geração sorrindo
Se olhando no espelho e vendo que a esperança se transformou
Em um passado inalcançável
E o gás da justiça social era só gogó
De uma geração suco em pó
5. Acorde
O ruim de sonhar
É você acordar
E ver que dormiu
Que o mundo girou
E você ficou
No mesmo lugar
Antes do sonho
De uma porta se abrir
E ficar triste
Pois o quarto não existe
Volte a dormir
Tente reencontrar
A página de um livro que não foi escrito
6. Chuva Seca
Eu ando perdido com frequência
Não procuro lugares, procuro por referências
Não procuro lugares
Porque ando sempre nos mesmos lugares
Ando sempre com as mesmas chaves
E vou regando as flores no caminho
Só que andando em círculos
Um dia essa flor vai se afogar
E eu vou me molhar ao olhar a pétala nadar
E eu nem quis podá-la
Mas agora não adianta
As vezes a história nem existe
Porque o final se adianta
E essa margarida morreu afogada
Com a água de uma mágoa
Que estagnou na minha garganta
Não vejo chuva no espelho
Essa é a consequência
De desertificar um espírito seco
E as rachaduras desse solo
Contam um segredo
Não é tristeza
Isso é medo
7. Mentiras para o Espelho
Gosto de contar mentiras para o espelho
O problema é que o reflexo sou eu
Sou eu, então eu sei
O são e cínico eu que sabe
Do espelho toda a verdade
E a verdade é que sou mal, por isso sumo
Pra não dar oportunidade à maldade
Só que o peito inflama o que a cabeça exclama
E eu clamo por uma oportunidade
De mostrar que sou tão cinza quanto o céu que amo
De que as pessoas que não quero ver
Talvez queira tanto
Pra que o último capítulo dessa história antiga
Tenha um final mais amargo ainda
As palavras não escritas porque a tinta entalou
Na garganta, viraram janta, deu indigestão
Não quis incomodar e hoje estou incomodado
Não quis questionar, então quem que fez questão?
Quem virou a cara para não dar de cara?
Quem desapareceu sem mesmo dar satisfação?
Quem se deu por satisfeito porque já não precisava?
Pois eu quero que precise, e eu quero muito
Sim, esse é meu intuito
Não, eu não sinto muito
Sim, eu sinto muito rancor no coração
Eu quero que precise porque sempre disse sim
E cada vez mais do que nunca eu preciso dizer não
Isso é o que me sobrou, reclamo que reclamo
E reclamo, e reclamo, e reclamo e reclamo
Gosto de contar mentiras para o espelho
Principalmente eu te amo
8. Cardíaco
Sou suspeito, mas dói meu peito
Ver o mal feito, a maldade como uma opinião
Não é mau jeito, isso é proposta
E o propósito é a escolha de uma opção
De modelar toda uma geração
A próxima, mas não tão próspera geração
Que está propícia desde o seu princípio
A lutar pela própria escravidão
Criados em células e celulares
Selando o retorno de tragédias seculares
Adestrados, todos dentro de seus lares
Rosnando das sombras para assombrar os raios solares
Só lamento este tormento
De quem acha que conhecimento serve pra evitar comer cimento
Comer capim, comer carne ou comer carniça?
Antes ser uma preguiça do que ser uma ovelha
O carneiro ainda assim se sacrifica
Mas o carneiro não decide quem sai, quem fica.
Se identifica como mais uma vítima
Antes ser uma preguiça do que ser uma ovelha
O velho cria o novo e critica o novo
O novo não é crítico então não critica o velho
O novo então se torna velho, contribuinte
No crime que o prejudicado é o novo seguinte
Que jogado a água apenas segue a corrente
Eu não sou concorrente, mas também não sou comparsa
Tem aquele que diz "faça!", tem aquele que disfarça
Se estava em cima do muro, eu já sei qual é seu lado
Porque o seu muro caiu, só que desse chão não passa
Desse chão desgraçado
Engraçado que não vejo graça e nem glória
Te ensinaram a conservar ao invés de conversar
Porque eles têm medo de história
9. Esqueci de Dizer
Esqueci de dizer adeus
Também, não deu
Você tirou minha chance, o meu alcance
E não sei se cê percebeu
A vida é isso e é sem compromisso
A gente vive em busca de paz
E a minha some quando eu percebo
Que nem sei se você foi sem olhar para trás
Eu sei que fiquei para trás
Mas já não te vejo em minha frente
Não tenho medo de novas estradas
Mas temo as velhas que estão diferentes
Nunca mais ouvirei o seu bom dia
Mas pra falar a verdade... Já nem ouvia
Sei que grande parte do nada que sinto é você
Mas não tenho que reclamar
Só tenho que agradecer
E embora o vazio fim
Talvez cê sempre fora assim
A verdade é que você não precisa mais de mim
Esse é o adeus que eu posso oferecer
Com ciência que talvez você nem chegue a ler
Mas se um dia precisar e vier me procurar
Espero que isso seja tudo o que consiga encontrar
Fique bem
10. O Bom Filho
À casa torna, mas quem retorna
Acaba se tornando o olho do tornado
Essa torneira pingando transtornada
Me questiona: "Quem cê tem se tornado?"
Mas eu sou um ator nato
Pois mantenho o papel adornado
Aprisionado, o disfarce não tem funcionado
Eu me sinto nadando num campo minado
E uma hora isso tem que explodir
Espero que os espólios sejam externos
A aurora disso quer me extorquir
Espero este episódio há três invernos
Agora que sou o que sempre esculpi
Espero que estes olhos sempre esbeltos
Afora vejam que eu sempre existi
Descubram a ode que estava por perto
Peço que escute porque eu me expresso
A vida não é trem expresso
Na próxima parada eu me despeço
Porque vida, eu me disperso
Mas eu não sei quando é a próxima parada
Vida, cê tá preparada?
A vida passa depressa
Espere a próspera, e não receba a promessa
Porque a vida tem dessas
Eu sei que o amor assusta
As vezes meu amor me assusta
Porque as vezes ele não se encontra
Então sentir é uma busca
E sei que isso me frustra
Porque já segui o rastro
Só que o resto não se ilustra
Olhe para a luz do lustre
Sei que sentir é uma busca
E eu já não busco tanto


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