Sob a sombra de um colosso


Coleção de 2025.


Poemas:


I - Fogos de Artifício


Você está sentindo essa fricção?

Dizem que é ficção

Mas atos fictícios são como fogos de artifício

Pois brilham, iluminam, explodem e espantam

Os racionais, encantam os animais

Reanime-se

O solstício humano clama que se ame mais


Mas o amor é uma palavra grande demais

São quatro letras, são duas sílabas

Que caem pesadas nas cordas vocais

É um mergulho em um naufrágio

No qual você não acorda no cais

Ou você nada nesse mar de nada

Ou se afoga nesse mar de jaz


O presságio supõe que ilumino

Me pergunto em que estágio elimino

A angústia que é frágil, lamino

O próximo escape ágil e malino

Talvez no próximo fim de semana

Como um mago sem mana

O próspero afago que emana

É a própria magia humana


Mano, isso não é do meu feitio

Sou de um feitiço vadio, de um artifício vazio

Do precipício não caio

Pois meu princípio é tardio

O covarde tem coragem

Mas em um curto pavio

Dá pra pular do navio

Pode soltar seus fogos de artifício

Há sobreviventes no mar


II - Aquarelas


Acho que não sei falar de rosas

Isso se perdeu nas minhas prosas

Mágoas poderosas

Quando ver uma água cor de rosa

Lembra que minha alma é cor-de-cinza

E tá faltando tinta


Porque poesias se assemelham a aquarelas

Faz tempo que o pincel não toca a tela

Então eu troco os traços

Os espaços e os esboços

E as estrofes estranham os começos


III - Ritual para compor


Qual é o ritual para compor?

Qual parte a mais do meu espírito preciso decompor?

Espremer estes escombros que tenho acesso

Em troca de míseras gotículas de versos


Palavras que apenas profiro no escuro

Pois prefiro

Não há nada mais seguro que o sigilo

Não que eu seja um poço de impurezas, não sou puro

Mas há certas coisas que gritam demais em meus sussurros


E este silêncio perturba o meu silêncio

Essa ausência é presente em minha presença

Há vários rancores que não quero mais ver

Ao ponto de conseguir não mais reconhecer...

Alguns já consigo


IV - Auto-Possessão


O ar que respiro está contaminado

As palavras que profiro preferem não ser contadas

O silêncio que seguro as vezes parece um fardo

Do vazio surge uma fábula bem mal confabulada


Entre pontes e muros, construí foi um traslado

Que sai de lugar nenhum e vai pra nenhum lugar

A minha mente parece um apartamento abandonado

Bem caro de se viver, mas bem barato de alugar


E para os inquilinos, eu queria a inquisição

Amaldiçoá-los pela sua aquisição

Espero que aproveitem a próxima exposição

Eu tô possesso, é uma espécie de auto-possessão

Ansiedade, sofro por antecipação

A culpa também é minha, tenho participação

Resolvemos o problema com a comunicação

Mas o cenário dessa cena foi a imaginação


O trabalho do poeta é unir o verso

Então, por quê esse universo é tão perverso?

A arte era o meu artefato de alento

Quando que virou esse abstrato de alimento?


Falar de amor em um verso é uma coisa esquisita

Mas cada palavra bonita aqui será bem-vinda

Porque pra falar de amor tenho estrofes infinitas

Mas para falar de ódio, talvez tenha mais ainda


V - João e Maria


João e Maria, voltem pra casa

Não deixem as migalhas, escutem o bater das asas

Antes que seja tarde

Escute os abutres, eles farejam o cheiro de carne


Mesmo que a sua trilha esteja imperfeita

A vida que se vive são os rastros que se deixa

A fome você mata com os restos que te sobram

A fama que te mata são os rostos que te cobram


E eu me cubro com desesperança

Vivendo uma era onde o desespero é herança

Onde a inteligência é artificial

E a ignorância é um artifício do ser superficial

Se as aparências te importam, você é superfacial

O seu troco pro suborno não supre o oficial

Se esses ossos desse ofício hoje se encontram doentes

Troque crentes oficiais por crenças eficientes


João e Maria, a campainha

Não estranhem se não abrirem, vocês têm companhia

E aquela que acompanha, levantou uma campanha

Não existe arte noturna que vença essa artimanha

E na manhã de amanhã, eu vejo essa façanha

Suas almas esmigalhadas num rastro na montanha

Suas vidas estavam ganhas, arrogância tamanha

Mas a boca que se cala não é a boca que abocanha


VI - Todos por um


Eu não gosto de D’Artagnan

Dar-te-ei a resposta antes da data de amanhã

Tenho dito que o ditado é uma expressão bem vã

Um por todos, mas esse um é uma diva no divã

Vou devagar, pois estou dotado de uma raiva sã

Destes todos quantos destros vão te trair amanhã?

São Miladys de Winters que atendem por irmãs

Pregarão contra teus Athos em prol da moral cristã


E Aramis? O que me diz?

Tuas lâminas ou tua cruz empunharás?

Arames lisos não machucam, tu farparás

Almas ilesas se machucam, não amarás

Destas amarras do destino escaparás?

Ou vítimas em seu destino amarrarás?

Se esperar pelo divino, tu morrerás

E honestamente duvido que seja em paz


Todos a postos, repito a Porthos

Fecharam as janelas, cuidem dos gases vossos

Porque sumiram as portas, foi um corte de gastos

Tua carne tá cara, só vão sobrar teus ossos

Se vocês vão ser mortos? Pensei que fosse certo

Dá pra ver em teu rosto, pensou que fosse esperto

Mas eu te amorteço, serás sacrificado

Porque alguém já muito rico ainda quer teus centavos


Se quiser um conselho, vai ter que dar um trocado

Se quiser um resumo: valores tão trocados

A culpa não é minha que você não tenha se tocado

Que os Hermes de hereges você tenha atacado

E os pastores que elege lutam para salvar um messias

Criminoso, enquanto querem que você trampe seis dias

E no auge do seu cinismo ainda culpam as minorias

Porque o antagonismo alimenta a fé com poesias


VII - Ela é


Ela é linda como o pôr-do-Sol

Seu rosto brilha e esquenta todos os planetas

Apaixonante como andar na garoa

Com a sua blusa no fundo de sua gaveta


Ela é a mistura de tudo

E ao mesmo tempo não concorda com nada

Não quer que ninguém se aproxime demais

Mas, ao mesmo tempo quer se sentir desejada


Uma figura como esta não existe

No jogo de cartas, ela é a mais valiosa

Formosa, mas vive se escondendo num eclipse

Sempre que alguém lhe oferece uma rosa


E num mundo cor-de-rosa se imagina

No alto de um pedestal, como o prêmio final

Na jornada de um guerreiro que a sua mercê, por amor irá sofrer

E se jogará inteiro contra o mal


Pensamento banal, afinal

Na balança de Arquimedes, o amor é o equilíbrio

Quando um lado é mais pesado, a estrutura cede

E o que resta são os esforços para se encontrar os vivos


Um corpo escultural, um rosto monumental

Ela é a própria beleza na sua forma mais plena

A mais bela sinfonia em questão instrumental

Beleza que não condiz com sua mente pequena


Que se apequena a cada palavra que diz, eu fiz

O máximo possível para poder entender

Mas seus traços são uma bagunça imensa, me perdi

E seus rabiscos no caderno eu já não consigo ler


Ela é grande demais, o que está fazendo aqui?

Perturbando minha paz, mesmo que não pareça

O vento a leva e a traz, a corrente é assim

Ela é grande demais, que disso nunca se esqueça

E por que ainda faz? Perturba minha cabeça

Por que isso satisfaz uma pessoa como a si?

Ela é grande demais, não importa o que aconteça

Ela é grande demais, cuidado pra não cair


VIII - Meu mundo chorou por mim


Meu mundo chorou por mim

Fiquei tranquilo

Meu mundo chorou por mim

Fiquei tranquilo

Meu mundo chorou por mim

Fiquei tranquilo

Lágrimas de crocodilo


IX - Sentenças


A sinfonia adentra meus ouvidos

Foi pedida e desperdiçada

A sintonia entre dois conhecidos

Foi perdida ou despedaçada


Pedaço de mim me queria inteiro

Mas, nem meu inteiro estava completo

Competi em um jogo grosseiro

E quem saiu primeiro sempre estava certo


Certa vez, eu briguei com o papel

Por um erro da mão que segura a caneta

O sentido que há é cruel

E o cru da palavra vai além da letra


Lentamente, as coisas se encaixam

E fora da caixa, minha cabeça pensa

Já deixei tanta gente na caixa...

Ou fui expulso por minhas sentenças?


X - A vida é estranha


Esta ação terá consequências, queria ser inconsequente

Mas só me sinto incompleto onde o todo é excludente

Como uma borboleta azul batendo as asas pra sair

Eu não sou a borboleta, sou quem a deixa fugir

Aprecio toda escrita, mas não encaixo na escritura

Forçar palavras é formal, a forma é sua assinatura

O silêncio é a tormenta, a catarse já está à vista

Não há como reclamar, não é castigo, isso é conquista


Esta ação terá consequências, queria ser inconsequente

Mas só me sinto incorreto com o erro que não cometi no presente

Pressinto que a tempestade irá acabar com o dia de alguém

Tempestade em copo d'água é perigosa, afoga também

Todo mundo se importa com a vida, desde que a vida seja a sua

A chave que abre suas portas é uma chave, não uma gazua

Nos acostumamos a amputar as feridas sempre que sentimos dor

E mesmo sabendo disso, pinto minha vida com a cor do rancor


XI - A Ponte dos Espíritos


As nossas almas precisam de descanso

Mas, me canso de pensar em como ao descanso chego

Cuidado ao falar de quem se desapega ao mundo

A corrente do passado se quebra com desapego

E esse passado não foi brilhante pra todos

Há buracos mais profundos do que ver o próprio umbigo

Desde antes de cortar o cordão umbilical

É difícil distinguir a salvação do perigo


O perene é sereno e solene, inexistente

Existe a finitude, competente e inconsistente

Consiste a plenitude do plano para esse presente

O preso prega contra o tempo, o sempre some de repente

Repito, é doloroso olhar para frente

Enfrento demônios invisíveis nesse fronte

Afronte, descarrego palavras do meu pente

E pinto com cores incolores esta ponte


Ponto, o vento vem do Norte

Estou vendo a travessia do travesso que traz sorte

Certo, já conto com teu corte

O sortudo é aquele que sabe que não é forte

A força não passa de uma farsa

É fácil disfarçar um personagem, então faça


Prometem fogo, fazem fumaça

Porque o mundo já queima, não há como ser mais brega

Eu parto para a ponte, estou cada vez mais perto

Só me importo com o que porto, e com o que a ponte carrega


XII - Um Presente


O passado da poesia era um papel em branco

O futuro da poesia é um papel guardado

E se a inspiração for quem eu acho que é...

O futuro da poesia é um papel jogado

O futuro desse poeta é um papel jogado

No passado esse poeta era apaixonado

E se a inspiração for quem eu acho que é...

O verso desse poema não foi recitado

No presente, o poeta não é poeta

É só alguém que está errando do teu lado


XIII - O Refúgio da Atitude


Será que vai dar tempo para o dever ser cumprido?

O túnel da vida não me parece ser comprido

E tempo é algo que não se permite ser detido

Espero que suas camadas não tenham se derretido

Entendo que este túnel tenha o cheiro da derrota

E sendo tão amargo, faz querer mudar de rota

Se você se adianta, então não sabe de nada

Mas se nada adianta, a vida é subordinada


Todos falam de sonhos e fecham os olhos

Eu vi o que pude

A amplitude de um sonho

É o refúgio da sua atitude


Todos querem ter tanto

Mas perdem pros poucos que querem ter tudo

E eu queria ter tido este estudo

Antes de entrar neste túnel

Foi seguindo meus sonhos

Que agi por todas as ruas que estive

Foi para os meus sonhos

Que fugi de todas as ruas que estive


Não que sonhar seja algo ruim

Eu preciso de um refúgio assim

Mas me vendem a custo da alma

Algo que não depende só de mim

Então eu posso até dizer sim

Ao amor dentro do Amorim

Mas o mundo está acabando

E nem mesmo o ódio sobrevive ao fim


Todos falam de sonhos e fecham os olhos

Eu vi o que pude

A amplitude de um sonho

É o refúgio da sua atitude

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