Sob a sombra de um colosso
I - Fogos de Artifício
Você está sentindo essa fricção?
Dizem que é ficção
Mas atos fictícios são como fogos de artifício
Pois brilham, iluminam, explodem e espantam
Os racionais, encantam os animais
Reanime-se
O solstício humano clama que se ame mais
Mas o amor é uma palavra grande demais
São quatro letras, são duas sílabas
Que caem pesadas nas cordas vocais
É um mergulho em um naufrágio
No qual você não acorda no cais
Ou você nada nesse mar de nada
Ou se afoga nesse mar de jaz
O presságio supõe que ilumino
Me pergunto em que estágio elimino
A angústia que é frágil, lamino
O próximo escape ágil e malino
Talvez no próximo fim de semana
Como um mago sem mana
O próspero afago que emana
É a própria magia humana
Mano, isso não é do meu feitio
Sou de um feitiço vadio, de um artifício vazio
Do precipício não caio
Pois meu princípio é tardio
O covarde tem coragem
Mas em um curto pavio
Dá pra pular do navio
Pode soltar seus fogos de artifício
Há sobreviventes no mar
II - Aquarelas
Acho que não sei falar de rosas
Isso se perdeu nas minhas prosas
Mágoas poderosas
Quando ver uma água cor de rosa
Lembra que minha alma é cor-de-cinza
E tá faltando tinta
Porque poesias se assemelham a aquarelas
Faz tempo que o pincel não toca a tela
Então eu troco os traços
Os espaços e os esboços
E as estrofes estranham os começos
III - Ritual para compor
Qual é o ritual para compor?
Qual parte a mais do meu espírito preciso decompor?
Espremer estes escombros que tenho acesso
Em troca de míseras gotículas de versos
Palavras que apenas profiro no escuro
Pois prefiro
Não há nada mais seguro que o sigilo
Não que eu seja um poço de impurezas, não sou puro
Mas há certas coisas que gritam demais em meus sussurros
E este silêncio perturba o meu silêncio
Essa ausência é presente em minha presença
Há vários rancores que não quero mais ver
Ao ponto de conseguir não mais reconhecer...
Alguns já consigo
IV - Auto-Possessão
O ar que respiro está contaminado
As palavras que profiro preferem não ser contadas
O silêncio que seguro as vezes parece um fardo
Do vazio surge uma fábula bem mal confabulada
Entre pontes e muros, construí foi um traslado
Que sai de lugar nenhum e vai pra nenhum lugar
A minha mente parece um apartamento abandonado
Bem caro de se viver, mas bem barato de alugar
E para os inquilinos, eu queria a inquisição
Amaldiçoá-los pela sua aquisição
Espero que aproveitem a próxima exposição
Eu tô possesso, é uma espécie de auto-possessão
Ansiedade, sofro por antecipação
A culpa também é minha, tenho participação
Resolvemos o problema com a comunicação
Mas o cenário dessa cena foi a imaginação
O trabalho do poeta é unir o verso
Então, por quê esse universo é tão perverso?
A arte era o meu artefato de alento
Quando que virou esse abstrato de alimento?
Falar de amor em um verso é uma coisa esquisita
Mas cada palavra bonita aqui será bem-vinda
Porque pra falar de amor tenho estrofes infinitas
Mas para falar de ódio, talvez tenha mais ainda
V - João e Maria
João e Maria, voltem pra casa
Não deixem as migalhas, escutem o bater das asas
Antes que seja tarde
Escute os abutres, eles farejam o cheiro de carne
Mesmo que a sua trilha esteja imperfeita
A vida que se vive são os rastros que se deixa
A fome você mata com os restos que te sobram
A fama que te mata são os rostos que te cobram
E eu me cubro com desesperança
Vivendo uma era onde o desespero é herança
Onde a inteligência é artificial
E a ignorância é um artifício do ser superficial
Se as aparências te importam, você é superfacial
O seu troco pro suborno não supre o oficial
Se esses ossos desse ofício hoje se encontram doentes
Troque crentes oficiais por crenças eficientes
João e Maria, a campainha
Não estranhem se não abrirem, vocês têm companhia
E aquela que acompanha, levantou uma campanha
Não existe arte noturna que vença essa artimanha
E na manhã de amanhã, eu vejo essa façanha
Suas almas esmigalhadas num rastro na montanha
Suas vidas estavam ganhas, arrogância tamanha
Mas a boca que se cala não é a boca que abocanha
VI - Todos por um
Eu não gosto de D’Artagnan
Dar-te-ei a resposta antes da data de amanhã
Tenho dito que o ditado é uma expressão bem vã
Um por todos, mas esse um é uma diva no divã
Vou devagar, pois estou dotado de uma raiva sã
Destes todos quantos destros vão te trair amanhã?
São Miladys de Winters que atendem por irmãs
Pregarão contra teus Athos em prol da moral cristã
E Aramis? O que me diz?
Tuas lâminas ou tua cruz empunharás?
Arames lisos não machucam, tu farparás
Almas ilesas se machucam, não amarás
Destas amarras do destino escaparás?
Ou vítimas em seu destino amarrarás?
Se esperar pelo divino, tu morrerás
E honestamente duvido que seja em paz
Todos a postos, repito a Porthos
Fecharam as janelas, cuidem dos gases vossos
Porque sumiram as portas, foi um corte de gastos
Tua carne tá cara, só vão sobrar teus ossos
Se vocês vão ser mortos? Pensei que fosse certo
Dá pra ver em teu rosto, pensou que fosse esperto
Mas eu te amorteço, serás sacrificado
Porque alguém já muito rico ainda quer teus centavos
Se quiser um conselho, vai ter que dar um trocado
Se quiser um resumo: valores tão trocados
A culpa não é minha que você não tenha se tocado
Que os Hermes de hereges você tenha atacado
E os pastores que elege lutam para salvar um messias
Criminoso, enquanto querem que você trampe seis dias
E no auge do seu cinismo ainda culpam as minorias
Porque o antagonismo alimenta a fé com poesias
VII - Ela é
Ela é linda como o pôr-do-Sol
Seu rosto brilha e esquenta todos os planetas
Apaixonante como andar na garoa
Com a sua blusa no fundo de sua gaveta
Ela é a mistura de tudo
E ao mesmo tempo não concorda com nada
Não quer que ninguém se aproxime demais
Mas, ao mesmo tempo quer se sentir desejada
Uma figura como esta não existe
No jogo de cartas, ela é a mais valiosa
Formosa, mas vive se escondendo num eclipse
Sempre que alguém lhe oferece uma rosa
E num mundo cor-de-rosa se imagina
No alto de um pedestal, como o prêmio final
Na jornada de um guerreiro que a sua mercê, por amor irá sofrer
E se jogará inteiro contra o mal
Pensamento banal, afinal
Na balança de Arquimedes, o amor é o equilíbrio
Quando um lado é mais pesado, a estrutura cede
E o que resta são os esforços para se encontrar os vivos
Um corpo escultural, um rosto monumental
Ela é a própria beleza na sua forma mais plena
A mais bela sinfonia em questão instrumental
Beleza que não condiz com sua mente pequena
Que se apequena a cada palavra que diz, eu fiz
O máximo possível para poder entender
Mas seus traços são uma bagunça imensa, me perdi
E seus rabiscos no caderno eu já não consigo ler
Ela é grande demais, o que está fazendo aqui?
Perturbando minha paz, mesmo que não pareça
O vento a leva e a traz, a corrente é assim
Ela é grande demais, que disso nunca se esqueça
E por que ainda faz? Perturba minha cabeça
Por que isso satisfaz uma pessoa como a si?
Ela é grande demais, não importa o que aconteça
Ela é grande demais, cuidado pra não cair
VIII - Meu mundo chorou por mim
Meu mundo chorou por mim
Fiquei tranquilo
Meu mundo chorou por mim
Fiquei tranquilo
Meu mundo chorou por mim
Fiquei tranquilo
Lágrimas de crocodilo
IX - Sentenças
A sinfonia adentra meus ouvidos
Foi pedida e desperdiçada
A sintonia entre dois conhecidos
Foi perdida ou despedaçada
Pedaço de mim me queria inteiro
Mas, nem meu inteiro estava completo
Competi em um jogo grosseiro
E quem saiu primeiro sempre estava certo
Certa vez, eu briguei com o papel
Por um erro da mão que segura a caneta
O sentido que há é cruel
E o cru da palavra vai além da letra
Lentamente, as coisas se encaixam
E fora da caixa, minha cabeça pensa
Já deixei tanta gente na caixa...
Ou fui expulso por minhas sentenças?
X - A vida é estranha
Esta ação terá consequências, queria ser inconsequente
Mas só me sinto incompleto onde o todo é excludente
Como uma borboleta azul batendo as asas pra sair
Eu não sou a borboleta, sou quem a deixa fugir
Aprecio toda escrita, mas não encaixo na escritura
Forçar palavras é formal, a forma é sua assinatura
O silêncio é a tormenta, a catarse já está à vista
Não há como reclamar, não é castigo, isso é conquista
Esta ação terá consequências, queria ser inconsequente
Mas só me sinto incorreto com o erro que não cometi no presente
Pressinto que a tempestade irá acabar com o dia de alguém
Tempestade em copo d'água é perigosa, afoga também
Todo mundo se importa com a vida, desde que a vida seja a sua
A chave que abre suas portas é uma chave, não uma gazua
Nos acostumamos a amputar as feridas sempre que sentimos dor
E mesmo sabendo disso, pinto minha vida com a cor do rancor
XI - A Ponte dos Espíritos
As nossas almas precisam de descanso
Mas, me canso de pensar em como ao descanso chego
Cuidado ao falar de quem se desapega ao mundo
A corrente do passado se quebra com desapego
E esse passado não foi brilhante pra todos
Há buracos mais profundos do que ver o próprio umbigo
Desde antes de cortar o cordão umbilical
É difícil distinguir a salvação do perigo
O perene é sereno e solene, inexistente
Existe a finitude, competente e inconsistente
Consiste a plenitude do plano para esse presente
O preso prega contra o tempo, o sempre some de repente
Repito, é doloroso olhar para frente
Enfrento demônios invisíveis nesse fronte
Afronte, descarrego palavras do meu pente
E pinto com cores incolores esta ponte
Ponto, o vento vem do Norte
Estou vendo a travessia do travesso que traz sorte
Certo, já conto com teu corte
O sortudo é aquele que sabe que não é forte
A força não passa de uma farsa
É fácil disfarçar um personagem, então faça
Prometem fogo, fazem fumaça
Porque o mundo já queima, não há como ser mais brega
Eu parto para a ponte, estou cada vez mais perto
Só me importo com o que porto, e com o que a ponte carrega
XII - Um Presente
O passado da poesia era um papel em branco
O futuro da poesia é um papel guardado
E se a inspiração for quem eu acho que é...
O futuro da poesia é um papel jogado
O futuro desse poeta é um papel jogado
No passado esse poeta era apaixonado
E se a inspiração for quem eu acho que é...
O verso desse poema não foi recitado
No presente, o poeta não é poeta
É só alguém que está errando do teu lado
XIII - O Refúgio da Atitude
Será que vai dar tempo para o dever ser cumprido?
O túnel da vida não me parece ser comprido
E tempo é algo que não se permite ser detido
Espero que suas camadas não tenham se derretido
Entendo que este túnel tenha o cheiro da derrota
E sendo tão amargo, faz querer mudar de rota
Se você se adianta, então não sabe de nada
Mas se nada adianta, a vida é subordinada
Todos falam de sonhos e fecham os olhos
Eu vi o que pude
A amplitude de um sonho
É o refúgio da sua atitude
Todos querem ter tanto
Mas perdem pros poucos que querem ter tudo
E eu queria ter tido este estudo
Antes de entrar neste túnel
Foi seguindo meus sonhos
Que agi por todas as ruas que estive
Foi para os meus sonhos
Que fugi de todas as ruas que estive
Não que sonhar seja algo ruim
Eu preciso de um refúgio assim
Mas me vendem a custo da alma
Algo que não depende só de mim
Então eu posso até dizer sim
Ao amor dentro do Amorim
Mas o mundo está acabando
E nem mesmo o ódio sobrevive ao fim
Todos falam de sonhos e fecham os olhos
Eu vi o que pude
A amplitude de um sonho
É o refúgio da sua atitude


Comentários
Postar um comentário