All of Us Are Dead: Esperança e Juventude.
Ser lógico não é necessariamente ser humano
Um dos chavões mais repetidos por aí é de que as novas gerações são muito frágeis, piores que as anteriores. E é fácil de se entender o porquê disso. E embora eu não concorde totalmente com a frase, o que mais me incomoda é o como evitam de falar o, talvez, ponto mais crucial dela: quem criou o problema das novas gerações? Quem criou as novas gerações?
É muito fácil ignorar um problema quando ele surge e circula entre os mais jovens. Porque eles ainda não têm a noção de como o mundo adulto funciona. Ou, ainda mais erroneamente, não podem ser problemas tão sérios. Suas emoções e dilemas são diminuídos por n motivos, como a simples falta de vontade de causar uma indisposição que pode prejudicar algo tão frágil como a reputação do seu trabalho.
Quando o caos começa a se instaurar em toda a cidade de Hyosan, o epicentro do surto, o colégio, é abandonado pelas autoridades. Resta para os jovens sobreviventes continuar se esforçando ao máximo para garantir mais algumas horas, sem comida ou água, na esperança de que algum adulto lembre que elas existem, e venha a resgatar. Aquele diálogo na zona de quarentena no último episódio catalisa todo esse sentimento reprimido de forma precisa.
Por que os jovens foram abandonados? Porque o problema partiu deles... Sem ter partido deles. Uma aluna foi a primeira infectada, de um vírus desenvolvido por um professor que tentou lidar do seu jeito com o bullying que seu filho sofria na escola por outros alunos após os responsáveis pela escola lavarem as mãos. O ciclo da violência e carnificina começa entre os jovens, espalha-se pelos jovens, mas fora cultivado por aqueles que os educam.
Entre todos os romances e dilemas adolescentes, que são gostosos de se assistir, as interações e o desenvolvimento dos laços de jovens que só podem contar uns com os outros neste pesadelo, esta juventude acaba tendo que amadurecer sozinha, e se transforma em algo perigoso para os mais velhos.
E essa juventude não é perfeita, tampouco o é aquilo que ela se transforma. Cometem incontáveis erros na força do desespero e de seus próprios preconceitos, afinal, são humanos em formação, postos em uma terrível situação. Ao mesmo passo que aprendem a se virar, tornam-se cada vez mais vazios. É isso que é amadurecer? Retirar o recheio de nossas almas para nos tornar intransponíveis?
Para se ter mais uma ideia de como essa ideia de amadurecimento é perigosa, a medida que as personagens precisam evoluir, o vírus evolui também. Mutações imprevisíveis, que tornam mais complexa ainda a tarefa de entender qual é a ameaça que nos cerca. Quanto mais organismos diferentes são afetados por esse instinto violento, mais expressões diferentes dessa violência podem ser diagnosticadas.
All of Us Are Dead é um soneto sobre Esperança e Juventude. Acompanhamos o definhar dessas características no mundo apresentado. A extrema dificuldade desses personagens de se locomover de sala em sala, cercados por uma violência contagiosa, cada vez mais intensa, que mesmo sem infiltrar seu organismo, corroem seus laços com o mundo, gera um sincero apego, o que torna todo o deleite de acompanhar essa história doloroso, assim como tem que ser.
A violência é um vírus proliferado por todas as camadas da sociedade, mas que é ignorada quando infecta aqueles que ainda estão se tornando cidadãos. E a humanidade nunca venceu um vírus.
Grande série.

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